Medicamentos que atuam em vias hormonais relacionadas ao apetite ganharam grande visibilidade. Com a mesma rapidez, surgiram duas ideias simplificadoras: a de que seriam uma solução fácil e a de que, se o peso retorna após a suspensão, o tratamento teria “falhado”. Os estudos não sustentam nenhuma dessas conclusões.
Por que este assunto está em debate
A obesidade é uma condição crônica e multifatorial. Fome, saciedade, gasto energético, sono, ambiente, medicamentos, saúde emocional e outras doenças podem participar do quadro. Durante o tratamento, algumas medicações reduzem o apetite e favorecem maior saciedade. Quando são retiradas, parte dessas adaptações pode desaparecer.
Isso não significa que todas as pessoas recuperarão o mesmo peso nem que o uso deverá ser obrigatoriamente mantido para sempre. Significa que a interrupção precisa fazer parte de um plano — e não ser tratada como uma etapa sem consequências previsíveis.
O que os estudos mostram
Na extensão do estudo STEP 1, participantes que haviam usado semaglutida recuperaram, em média, cerca de dois terços do peso perdido no período de um ano após a retirada. Melhoras cardiometabólicas também tenderam a voltar em direção aos valores iniciais.
No estudo SURMOUNT-4, pessoas que interromperam a tirzepatida e passaram a receber placebo apresentaram reganho importante, enquanto aquelas que continuaram o tratamento mantiveram e ampliaram a perda de peso. Uma análise posterior mostrou que maior reganho esteve associado à reversão de parte das melhoras em cintura, pressão arterial, lipídios e glicemia.
Uma revisão sistemática publicada no BMJ em 2026 reuniu 37 estudos e estimou reganho médio aproximado de 0,4 kg por mês após a interrupção de medicamentos para controle do peso. A velocidade e a quantidade variaram entre estudos, medicamentos e participantes.
Reganho não é falta de força de vontade
Depois da perda de peso, o organismo pode responder com aumento da fome e redução do gasto energético. Essas respostas biológicas ajudam a explicar por que manter o resultado é difícil. Colocar toda a responsabilidade na disciplina do paciente ignora o funcionamento da própria condição.
Ao mesmo tempo, a medicação não substitui avaliação clínica, alimentação possível, sono, atividade física, preservação de massa muscular e acompanhamento das doenças associadas. Ela é uma ferramenta que pode ou não integrar uma estratégia mais ampla.
É possível interromper?
Sim, em situações selecionadas. Antes disso, vale conversar sobre o motivo da suspensão, o momento clínico, como o peso e as condições associadas serão acompanhados e o que será feito caso a fome, a glicemia ou o peso voltem a piorar. Não existe uma única estratégia válida para todos.
Não interrompa nem modifique a dose por conta própria. A forma de ajuste depende do medicamento, das demais condições de saúde e do risco individual.
Quando procurar avaliação
- Antes de iniciar um medicamento visto nas redes sociais ou usado por conhecidos.
- Quando há efeitos adversos, dificuldade de acesso ou dúvida sobre continuar.
- Se ocorreu reganho após uma suspensão ou um tratamento anterior.
- Quando obesidade, diabetes, hipertensão, apneia do sono, esteatose hepática ou alterações do colesterol aparecem em conjunto.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui uma consulta. Procure atendimento de urgência diante de sintomas intensos ou piora aguda do estado geral.
Referências
- West S et al. Weight regain after cessation of medication for weight management: systematic review and meta-analysis. BMJ. 2026. Acessar.
- Wilding JPH et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: the STEP 1 trial extension. Diabetes Obes Metab. 2022. PubMed.
- Aronne LJ et al. Continued treatment with tirzepatide for maintenance of weight reduction in adults with obesity: SURMOUNT-4. JAMA. 2024. PubMed.
- Horn DB et al. Cardiometabolic parameter change by weight regain on tirzepatide withdrawal. JAMA Internal Medicine. 2026. Acessar.
- World Health Organization. Guideline on the use of GLP-1 medicines in treating obesity. 2025. Acessar.
