O sintoma precisa vir antes do produto
Ondas de calor, noites mal dormidas e mudanças no bem-estar podem levar à procura de uma solução rápida. Produtos voltados à menopausa frequentemente reúnem ingredientes diferentes, mas uma fórmula com muitos componentes não garante um resultado melhor.
Antes de escolher um produto, vale identificar o que se pretende tratar. Reduzir fogachos, corrigir uma deficiência nutricional e cuidar da saúde óssea são objetivos diferentes. A evidência para um deles não comprova benefício para os demais.
O que as diretrizes dizem sobre os fogachos
O posicionamento de 2023 da The Menopause Society, publicado na revista Menopause, não recomenda suplementos e produtos herbais para tratar sintomas vasomotores, como ondas de calor e suores noturnos. A recomendação reflete evidência limitada ou inconsistente de benefício, e não a ideia de que toda experiência individual seja inválida. [1]
A terapia hormonal permanece o tratamento mais eficaz para esses sintomas, quando indicada após avaliação individual. Para quem apresenta contraindicações ou prefere outra abordagem, existem opções não hormonais com evidência. A escolha depende do histórico clínico e das opções disponíveis, e não deve ser feita apenas por publicidade. [1]
Isoflavonas: soja no prato e extratos não são equivalentes
As isoflavonas são compostos vegetais estudados por sua atividade semelhante à do estrogênio em alguns tecidos. Isso não significa que tenham o mesmo efeito de uma terapia hormonal ou que sejam apropriadas para qualquer pessoa.
Estudos com produtos de soja mostram resultados variáveis para ondas de calor. Diferenças de formulação, dose e população dificultam generalizações. A diretriz de 2023 não recomenda extratos de soja ou equol para esse objetivo. Comer soja como parte da alimentação é uma decisão diferente de usar extratos concentrados para tratar sintomas. [1,2]
Cimicífuga: um resultado favorável não se aplica a todas as fórmulas
Uma revisão de 2023 encontrou possível melhora de sintomas com produtos contendo cimicífuga. Porém, os estudos incluíram extratos e combinações diferentes. Não é possível assumir que qualquer produto com esse nome oferecerá o mesmo benefício. [3]
Também existem relatos raros de lesão hepática em pessoas que utilizaram produtos rotulados como cimicífuga; a relação causal nem sempre está esclarecida. A procedência, a composição e o histórico de saúde importam. Produtos vegetais podem interagir com medicamentos e não são automaticamente seguros por serem chamados de naturais. [2,3]
Quando a suplementação pode fazer sentido
Suplementar um nutriente para uma necessidade identificada é diferente de prescrever um conjunto de cápsulas para todas as mulheres na menopausa. A decisão deve considerar alimentação, condições clínicas e o objetivo específico do cuidado.
Uma pergunta útil é: qual benefício esperamos, em quanto tempo e como vamos verificar se ele aconteceu? Sem essa definição, há risco de acumular produtos, despesas e ingredientes repetidos, enquanto o sintoma principal continua sem avaliação.
Uma decisão individualizada
O cuidado na menopausa deve levar o desconforto a sério. Isso inclui investigar sintomas persistentes e discutir alternativas com benefícios e limitações claros, sem transformar a escolha em uma disputa entre natural e hormonal.
Na consulta, leve uma lista ou fotografias dos rótulos dos produtos utilizados. Informe doses, tempo de uso, medicamentos e efeitos percebidos. Essa revisão ajuda a identificar duplicidades e interações e a construir um plano adequado às suas necessidades.
Conteúdo educativo. A escolha de exames, dispositivos e tratamentos deve ser individualizada em consulta.
Referências
- The North American Menopause Society. The 2023 nonhormone therapy position statement. Menopause. 2023;30:573–590. Acessar referência.
- NCCIH. Menopausal Symptoms: In Depth. Acessar referência.
- NCCIH. Black Cohosh: Usefulness and Safety. Revisão de estudos e segurança. Acessar referência.
